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As Duas Mortes de Roger Casement

As duas mortes de Roger Casement. Um dos precursores na luta pelos direitos humanos, Sir Roger Casement ocupou o cargo de cônsul da coroa britânica na África e no Brasil no final do século XIX e início do século XX. Por sua atuação no Congo belga e na região amazônica, investigando e relatando abusos contra os nativos forçados a coletar borracha, Casement foi sagrado cavaleiro pelo governo de Sua Majestade. Mais tarde, ao se envolver na luta pela independência da Irlanda, acabou sendo acusado de alta traição pela justiça inglesa.
A história de sua vida se encontra relatada em centenas de documentos dispersos, cartas e diários escritos na Europa, África e América do Sul. Entre os diários que deixou estão aqueles conhecidos como “Diários Brancos” e “Diários Negros”. De autenticidade contestada, os “Diários Negros” ainda hoje ocupam o centro de debates artísticos, políticos e intelectuais.




Texto e Direção: Domingos Nunez
Produção Geral: Beatriz Kopschitz Bastos

Elenco: Amanda Acosta, Bruno Perillo, Chico Cardoso, Eliseu Paranhos, George Passos, Kiko Pissolato, Paulo Bordhin e Taiguara Nazareth

Piano: Demian Pinto
Composição Musical: Alberto Heller
Letras: Domingos Nunez
Direção Musical: Eliseu Paranhos
Cenografia e Figurinos: Cássio Brasil
Iluminação: Aline Santini
Preparação de Elenco: Inês Aranha
Preparação Corporal: Janette Santiago
Fotografia: Leekyung Kim

Vídeo: Rodrigo Bueno
Design de Som: André Omote
Programação Visual: Francine Kunghel
Operação de Luz: Gabriela Araújo
Operação de Som: Jeferson Santos
Cenotecnia: J Newton
Serralheria: China Cedro
Costura: Salete Paiva, Yrondi Moço Rillo e Silvia Castro
Assistência de Cenário e Figurino: Luiza Curvo
Assistência de Palco: João Jullo
Assessoria de Imprensa: Fabio Camara
Assistência de Produção: Marcela Sanchez
Produção Executiva: Fabio Camara
Direção de Produção: Silvia Marcondes Machado
Realização: Cia Ludens

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PEÇA DE REFERÊNCIAS

Meu interesse pelo personagem histórico Sir Roger Casement surgiu durante a conferência anual de estudos irlandeses na Concordia University, em Montreal, no ano de 2012, quando assisti uma comunicação proferida pela então aluna brasileira de doutorado Mariana Bolfarine. A ideia de criar um texto autoral, entretanto, já vinha sendo acalentada desde a recriação que fiz de uma peça de Bernard Shaw, montada pela Cia Ludens em 2008. Essa ideia se tornou mais evidente quando efetuei a fusão de duas peças de Tom Murphy que intitulei Balangangueri, o lugar onde ninguém mais ri, também produzida pela Ludens em 2011.
Essa conjunção de fatores resultou na idealização de um projeto em torno de Casement em 2013. Com o apoio da diretora literária e produtora da Cia Ludens, Beatriz Kopschitz Bastos, e o auxílio de uma bolsa de pós-doutorado em redação criativa junto à UNESP/São José do Rio Preto, uma proposta dramatúrgica começou efetivamente a ser delineada sob a supervisão do Prof. Dr. Peter James Harris. As várias versões que o texto assumiu foram sendo testadas ao longo de dois anos em diversas leituras públicas e privadas, realizadas com os alunos de artes cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal, e em São Paulo, com boa parte dos atores que hoje integram o elenco da peça. A última dessas leituras aconteceu em Brasília em março deste ano, a convite da Embaixada da Irlanda no Brasil.
Desde o início minha intenção foi escrever uma peça-documentário musicada, elegendo determinados aspectos da biografia multifacetada e controversa de Casement. A forma final do texto, entretanto, acabou por questionar os limites conceituais do gênero e se consolidou em duas partes chamadas de Lado A e Lado B. A construção dessas partes foi organizada a partir dos diários e relatórios escritos pelo próprio Casement e o vasto material acadêmico e literário em torno dele incluindo, entre outras referências: três biografias; o julgamento editado por H. Montgomery Hyde; a peça Cries from Casement as his bones are brought to Dublin, de David Rudkin; o romance O Sonho do Celta, de Mario Vargas Llosa; o filme The Ghost of Roger Casement, de Alan Gilsenan; o estudo de Catherine Morris sobre Alice Milligan e o debate presente em artigos e livros de especialistas como Angus Mitchell, Roger Sawyer, Jeffrey Dudgeon e Séamas Ó Síocháin.
Minha intenção e maior motivação com esse trabalho é introduzir ao público de teatro no Brasil a trajetória, o legado e a atuação de Roger Casement em três continentes, cem anos após sua morte.
Domingos Nunez
(Diretor Artístico da Cia Ludens)

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Cia Ludens e o teatro documentário irlandês

O conceito de teatro documentário serviu como referência para a construção e forma final do texto de As duas mortes de Roger Casement. Na Irlanda, só recentemente há experimentos com essa vertente dramática, também conhecida como documento cênico, teatro do real, teatro da vida, docudrama, teatro de verbatim, teatro de base na realidade, teatro de testemunha, teatro de tribunal, teatro de não ficção ou teatro de fatos, dentre outras nomenclaturas e variantes.
O teatro documentário usa, primordialmente, para seu texto, fontes como diários, cartas, relatórios, recortes de jornal, entrevistas e outros documentos, selecionados e montados em função da tese sociopolítica do dramaturgo.
Em 2015, a Cia Ludens organizou seu IV Ciclo de Leituras Dramáticas –“Cia Ludens e o teatro documentário irlandês”, no Teatro Eva Herz de São Paulo, com a apresentação de cinco peças documentário irlandesas: Titanic, cenas de um inquérito, de Owen McCafferty; Garantido!, de Colin Murphy; Sem saída, de Mary Raftery; Mácula, de Hugo Hamilton, e Descendo da perna-de-pau: Yeats e o Abbey Theatre, de Aideen Howard, com traduções de Fernanda Verçosa, Leonor Cione, Alinne Fernandes, Beatriz Kopschitz Bastos e Maria Rita Viana, respectivamente. Uma leitura da primeira versão completa da peça sobre Roger Casement foi também apresentada durante o ciclo. O ciclo contou ainda com debates após cada apresentação com os autores das peças, críticos de teatro brasileiros e acadêmicos irlandeses.
O objetivo do ciclo foi estudar o gênero teatro documentário e testar seus parâmetros e limitações. A conclusão obtida foi que variam as formas, a temática e os estilos de escrita, mas o entendimento do que possa ser o teatro documentário desafia os limites de uma definição conceitual hermética e se expande, abrindo espaço para hibridismos e misturas que incluem, entre outras formas, a ficção, a autobiografia, a música e o verso.
Além do Ciclo de Leituras, a fase de pesquisa preparatória para a produção da peça incluiu também uma viagem a Tralee, no condado de Kerry, no oeste da Irlanda, onde Casement foi preso, e a outros locais da região, e uma viagem investigativa aos locais da Amazônia onde Casement atuou – para coleta de dados, material musical e entrevistas. Sete etnias diferentes foram visitadas e o trajeto na Amazônia foi documentado em um mapa etnográfico e notas pela antropóloga do Museu Nacional do Rio de Janeiro, Elena Welper, especialista em etnografia brasileira.
Beatriz Kopschitz Bastos

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Roger Casement*

No dia 24 de abril de 1916, uma segunda-feira após a Páscoa, os Voluntários Irlandeses e o Exército do Cidadão Irlandês adentraram a Agência Central dos Correios, em Dublin, e proclamaram “a República da Irlanda como Estado Independente e Soberano”, em flagrante rejeição ao domínio britânico. Era o auge da Primeira Guerra Mundial, e o governo britânico jamais toleraria a ruptura do império pelo qual lutava. Portanto, os rebeldes foram alvos de um pesado bombardeio levado a cabo pelas forças britânicas, cujo poder de fogo era muito superior ao das forças irlandesas. Contudo, os insurgentes resistiram até a sexta-feira, 29 de abril, quando, diante da destruição da Agência Central e de grande parte do centro da cidade, viram-se forçados a se entregar. Embora frustrado sob o ponto de vista militar, o levante espalhou as sementes da resistência política que, em 1922, propiciou a formação do Estado Livre Irlandês (atualmente a República da Irlanda). Um dos indivíduos mais complexos entre os correligionários da revolução foi Roger Casement.
Casement nasceu em 1864, no seio da chamada Ascendência Anglo-Irlandesa, a classe protestante hegemônica, partidária do domínio britânico, e teve sua carreira pública construída e consolidada dentro do establishment. Enquanto funcionário do Gabinete Colonial Britânico, em junho de 1902, foi indicado a atuar no Congo Belga, sendo incumbido de investigar a exploração que o comércio de marfim impunha aos nativos. Então, o processo de radicalização de Casement já estava em curso, fato que seria confirmado por experiências posteriores. Em 1908, Casement foi designado Cônsul-Geral Britânico no Rio de Janeiro, e, no ano seguinte, o Ministério das Relações Exteriores britânico encarregou-o de apurar relatos provenientes da região do Putumayo, na Amazônia, segundo os quais populações indígenas estavam sendo exploradas pelos “barões da borracha”. Em 1911, em reconhecimento por serviços prestados, Casement recebeu o título de Cavalheiro do Império Britânico, mas a experiência vivenciada na Amazônia acentuara-lhe a radicalização, voltando-o contra todo e qualquer aspecto do colonialismo. Em 1913, Casement exonerou-se do Ministério, e teceu comparações explícitas entre o sofrimento dos povos indígenas na Amazônia e a população de Connemara, no oeste da Irlanda, região por ele definida como “o Putumayo irlandês”, em decorrência da devastação provocada por uma epidemia de tifo. Àquela altura, Roger Casement tornara-se um aguerrido nacionalista irlandês.
Professor Shaun Richards

*Texto originalmente escrito em inglês. Tradução de José Roberto O’Shea.